No contexto do Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo, os desafios da maternidade atípica no ambiente de trabalho entram em pauta, ainda marcados pela ausência de políticas estruturadas nas empresas. Entre jornadas múltiplas e sobrecarga emocional, mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrentam barreiras que impactam diretamente sua carreira e qualidade de vida.
No Brasil, cerca de 2,4 milhões de pessoas estão no espectro autista, segundo o IBGE. Por trás desse número, diversas famílias enfrentam uma rotina intensa de terapias, consultas médicas e acompanhamento contínuo, uma dinâmica que exige organização, tempo e recursos financeiros.
A complexidade dessa realidade se reflete diretamente no ambiente corporativo. Um levantamento da VR, realizado com 33 mil empresas, revelou que 70% dos atestados para acompanhamento de filhos e familiares em consultas médicas são apresentados por mulheres. Esse dado não apenas evidencia a sobrecarga enfrentada por mães e cuidadoras, mas também levanta a reflexão sobre como políticas corporativas mais inclusivas e empáticas podem impactar positivamente o mercado de trabalho brasileiro.
Dados do estudo “Cuidando de quem cuida”, da Genial Care, mostram que 86% dos cuidadores de crianças com autismo são mães, evidenciando a concentração da responsabilidade do cuidado nas mulheres. Além disso, 68% relatam não ter tempo para si mesmas e 47% afirmam sentir culpa pela condição dos filhos, o que amplia a sobrecarga emocional e reforça um ciclo de autocobrança difícil de romper.
Falta de estrutura no trabalho amplia desigualdades para mães atípicas
“As consequências são evidentes e quantificáveis: aumento nos índices de ausências, sinais de exaustão psíquica e, em muitos casos, afastamento definitivo do mercado de trabalho. A carência de políticas institucionais estruturadas e de mecanismos de suporte adequados para essas famílias tem um impacto direto na manutenção das desigualdades de gênero no ambiente corporativo”, explica a vice-presidente clínica da Genial Care, rede de cuidado em saúde especializada no atendimento a crianças autistas e suas famílias, Thalita Possmoser.
A desigualdade de gênero permanece como pano de fundo de toda essa dinâmica. Mesmo em contextos familiares diversos, a maior parte das responsabilidades segue concentrada nas mulheres, o que reforça disparidades históricas e limita o avanço na equidade dentro das empresas.
A tripla jornada – cuidar de uma criança com TEA, gerenciar as responsabilidades domésticas e manter o desempenho profissional – implica um profundo impacto na saúde física e emocional dessas colaboradoras. “A adoção de maior flexibilidade temporal e espacial por parte das empresas contribui significativamente para o equilíbrio entre as demandas profissionais e pessoais. Essa medida está associada à redução dos níveis de estresse percebido e, de forma concomitante, ao aumento da produtividade e do engajamento no contexto laboral”, destaca Thalita.
10 barreiras enfrentadas por mães atípicas no trabalho e como superá-las
Para a vice-presidente clínica da Genial Care, é preciso olhar além do Abril Azul e criar uma cultura organizacional que reconheça e valorize os desafios únicos da parentalidade atípica não apenas humaniza o ambiente de trabalho, mas também fortalece significativamente o senso de pertencimento e propósito entre todos os colaboradores. “Essa visão ampla e empática reflete-se diretamente na reputação da marca empregadora, na capacidade de atração e retenção de talentos e nos resultados organizacionais de longo prazo”, ressalta.
1) Conciliação de múltiplas jornadas exige novas formas de trabalho
A rotina que combina trabalho, casa e cuidado especializado demanda mais flexibilidade do que modelos tradicionais oferecem. Empresas podem avançar em suas políticas de inclusão ao adotar jornadas adaptáveis e maior autonomia sobre horários.
2) Saúde mental precisa entrar na agenda corporativa
A sobrecarga emocional é uma realidade, mas ainda pouco reconhecida e acolhida de forma estruturada. Programas de apoio psicológico são fundamentais para promover o bem-estar sustentável.
3) Culpa materna é agravada por sobrecarga e falta de apoio
Longe de ser uma questão individual, a culpa relatada por muitas mães está diretamente associada à pressão por dar conta de múltiplas demandas sem suporte adequado. Iniciativas de acolhimento e redes de apoio ajudam a reequilibrar essa dinâmica.
4) Progressão de carreira depende de equidade real
O desafio não está na maternidade, mas na forma como ela é percebida. Processos mais transparentes e políticas de equidade ajudam a garantir que essas profissionais sigam se desenvolvendo.
5) Políticas corporativas ainda precisam evoluir
A ausência de medidas estruturadas limita a permanência dessas mulheres no mercado. Licenças adaptadas, benefícios específicos e flexibilidade são caminhos concretos de avanço.
6) Gestão mais empática reduz estigmas
As necessidades específicas das mães atípicas podem ser melhor compreendidas com lideranças preparadas, capazes de avaliar desempenho com base em entregas e não apenas em presença.
7) Sem flexibilidade, inclusão não se sustenta
A rigidez de horários e formatos de trabalho entra em choque direto com a rotina de quem precisa lidar com terapias, consultas e imprevistos. Dar mais autonomia sobre tempo e presença tem se mostrado um dos caminhos mais efetivos para garantir permanência e engajamento.
8) Equilíbrio na divisão do cuidado é parte da solução
Embora seja uma questão social mais ampla, empresas podem incentivar uma cultura que reconheça o cuidado como responsabilidade compartilhada, inclusive por meio de políticas voltadas à parentalidade.
9) O custo do cuidado pesa e apoio faz diferença
Segundo o estudo “Retratos do Autismo no Brasil”, realizado pela Genial Care, 65% das famílias de crianças com TEA relatam enfrentar dificuldades financeiras significativas. Terapias, consultas e acompanhamentos contínuos têm um impacto real no orçamento das famílias. Quando há algum tipo de suporte, como ajuda de custo ou cobertura mais ampla, o dia a dia fica menos apertado e mais viável.
10) Visibilidade é o primeiro passo para a mudança
Reconhecer a maternidade atípica dentro das políticas de diversidade é essencial para construir soluções mais eficazes e ambientes verdadeiramente inclusivos. Medidas como flexibilidade no trabalho, programas de conscientização, suporte à saúde mental e ampliação da cobertura de saúde ajudam a construir ambientes mais inclusivos e sustentáveis.
“Transformar o ambiente corporativo em um verdadeiro aliado para a inclusão e o desenvolvimento pleno de todos os profissionais não apenas melhora substancialmente a qualidade de vida dos colaboradores diretamente envolvidos, mas também enriquece a organização como um todo, tornando-a mais resiliente, inovadora e estrategicamente preparada para enfrentar os desafios do futuro do trabalho”, finaliza Thalita Possmoser.
Daniella Pimenta 11973971591 [email protected]
