Outubro Rosa reforça que diagnóstico precoce vai além do autoexame

O Outubro Rosa volta a colocar o câncer de mama no centro do debate, mas a campanha também ajuda a desfazer um equívoco que ainda persiste. O autoexame é importante para que a mulher conheça o próprio corpo e perceba alterações, mas não substitui a mamografia, capaz de identificar tumores em fases iniciais, muitas vezes antes que possam ser palpados. A Sociedade Brasileira de Mastologia afirma que o rastreamento mamográfico reduz a mortalidade por câncer de mama entre 25% e 40% quando realizado de forma regular. Nos casos diagnosticados em estágio inicial, as taxas de cura podem superar 95%.

A dimensão do problema ajuda a explicar por que o rastreamento continua sendo uma questão de saúde pública. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028, o equivalente a 71,57 casos para cada 100 mil mulheres. A doença representa cerca de 30% de todos os novos casos de câncer entre as brasileiras, excluídos os tumores de pele não melanoma.

Para a médica ginecologista Roberta Brando, especialista na relação da mulher com o climatério, com a menopausa e especialista em terapia hormonal feminina, o principal ponto é entender que percepção corporal e rastreamento são estratégias complementares. “O autoexame não deve ser visto como um exame de rastreamento, porque ele costuma identificar alterações quando o tumor já pode ser palpável. A mamografia consegue encontrar lesões muito menores e, quanto mais cedo o câncer é descoberto, maiores são as possibilidades de tratamento menos agressivo e de cura. A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda mamografia anual para mulheres de risco habitual a partir dos 40 anos até os 74 anos, enquanto o INCA mantém a recomendação de rastreamento dos 50 aos 69 anos, a cada dois anos, no âmbito de suas diretrizes para o SUS”, indica.

A idade é o principal fator de risco, mas não é o único. De acordo com o INCA, cerca de quatro em cada cinco casos ocorrem após os 50 anos. Também entram nessa equação alterações genéticas, especialmente mutações hereditárias nos genes BRCA1 e BRCA2, além de fatores relacionados ao estilo de vida, como sedentarismo, consumo de bebidas alcoólicas e sobrepeso ou obesidade após a menopausa. Por outro lado, a prática regular de atividade física, a manutenção do peso adequado e a amamentação estão entre as medidas associadas à proteção.

A atenção também deve continuar mesmo quando a mulher está fora da faixa etária indicada para o rastreamento de rotina. “Nódulo endurecido, fixo e geralmente indolor, alterações na pele, como vermelhidão ou aspecto de casca de laranja, retração ou inversão recente do mamilo, secreção espontânea sanguinolenta ou transparente por apenas uma mama e nódulos nas axilas ou no pescoço são sinais que exigem avaliação médica. Qualquer mudança persistente ou diferente do padrão habitual merece investigação. Não é preciso esperar o próximo exame de rotina quando existe um sinal suspeito”, orienta Dra. Roberta.

Ainda a Sociedade Brasileira de Mastologia aponta que 70% das mulheres atendidas pelo SUS descobrem sozinhas o tumor, enquanto a cobertura mamográfica pelo sistema público alcança apenas 33% da população-alvo. “O desafio, no meu ponto de vista, não está apenas em ensinar a mulher a se examinar, mas em garantir acesso ao rastreamento, avaliação médica e tratamento no momento em que a doença ainda oferece as melhores perspectivas de controle”, finaliza a ginecologista.

Ícaro Ambrósio
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