Rio de Janeiro, julho de 2026 – Envelhecer com qualidade de vida envolve muito mais do que praticar exercícios, se alimentar bem, manter consultas médicas e tomar medicamentos corretamente. Cada vez mais, a ciência confirma que aspectos emocionais e espirituais exercem papel importante no bem-estar das pessoas idosas. A espiritualidade, entendida como a busca por sentido, propósito e conexão com algo maior, tem sido apontada como um fator de proteção para a saúde mental e emocional na terceira idade.
Uma metanálise internacional publicada em 2022 e classificada como nível 1 de evidência (o mais alto da hierarquia científica), mostrou que idosos que mantêm práticas espirituais ou religiosas apresentam menos sintomas de ansiedade e depressão, maior satisfação com a vida, mais propósito e melhor bem-estar psicológico. Outro levantamento, que reuniu 39 estudos publicados entre 2016 e 2023, chegou à mesma conclusão: quanto maior o nível de espiritualidade, melhores são os indicadores de saúde mental, independentemente da idade, gênero ou condição socioeconômica.
No Brasil, as pesquisas seguem a mesma direção. Estudos desenvolvidos pela Universidade de São Paulo (USP) e por pesquisadores de Pernambuco encontraram associação entre espiritualidade, melhor qualidade de vida e saúde mental, inclusive entre idosos que vivem em instituições de longa permanência.
Para a geriatra e autora do livro “Ciências da Saúde & Espiritualidade: Um Diálogo essencial para o cuidado”, Dra. Anelise Fonseca, esse resultado faz sentido porque o ser humano não se restringe apenas ao corpo. “Quando falamos em saúde da pessoa idosa, precisamos olhar para além das doenças. A espiritualidade oferece conforto, fortalece a esperança, ajuda a enfrentar perdas, limitações e mudanças próprias do envelhecimento. Independentemente da religião, ela favorece o sentimento de pertencimento, amplia a capacidade de lidar com momentos difíceis e contribui para preservar a saúde mental e a qualidade de vida.”
O reconhecimento da importância da espiritualidade não é recente. Desde 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera essa dimensão um dos componentes do cuidado integral, especialmente em pacientes que convivem com doenças crônicas e em cuidados paliativos. Hospitais de referência no Brasil e em diversos países já contam com serviços estruturados de assistência espiritual. Além disso, o Manual MSD, uma das principais referências médicas do mundo, destaca que a espiritualidade favorece uma atitude mais positiva diante da vida e da doença, refletindo em melhores resultados para a saúde.
Como familiares e cuidadores podem ajudar
Vale salientar que especialistas defendem que respeitar a espiritualidade da pessoa idosa não significa estimular uma religião específica, mas reconhecer aquilo que traz paz, esperança e significado para sua vida.
Segundo a Dra. Anelise Fonseca, pequenas atitudes no dia a dia podem fazer diferença. “O cuidado espiritual começa com a escuta. Perguntar o que conforta aquela pessoa, respeitar suas crenças, facilitar o acesso às práticas que lhe fazem bem e criar momentos de acolhimento são atitudes simples que fortalecem vínculos familiares, diminuem o sofrimento emocional e contribuem para uma velhice mais saudável e digna.”
Outras ações que familiares e cuidadores podem adotar são: reservar momentos para conversar sobre lembranças, valores e o que dá sentido à vida do idoso; respeitar suas crenças e escolhas, sem julgamentos ou tentativas de convencimento; facilitar a participação em celebrações religiosas ou espirituais, quando esse for o desejo da pessoa; incentivar o convívio com familiares, amigos e grupos comunitários, fortalecendo o sentimento de pertencimento; e, por fim, incluir perguntas sobre bem-estar emocional e espiritual na rotina de cuidados, dando à saúde mental a mesma importância dedicada aos cuidados físicos.
“Envelhecer com qualidade não significa apenas viver mais, mas viver melhor. Quando acolhemos a espiritualidade como parte do cuidado, passamos a ter um olhar mais humano, fortalecendo aspectos importantes na vida da pessoa idosa como a saúde mental, vínculos familiares e a dignidade em todas as fases do envelhecimento, conclui a Dra. Anelise Fonseca.
Sobre a Dra. Anelise Fonseca – Geriatra, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Regional Rio de Janeiro de julho 2022 até 2025. Atual coordenadora do Grupo de Interesse de Espiritualidade da pessoa idosa pela SBGG Nacional e do Grupo de Estudos sobre Espiritualidade da cidade do Rio de Janeiro (GES_RJ). Autora dos livros: “Ciências da Saúde & Espiritualidade: Um Diálogo essencial para o cuidado” e “E aí Doutora. É demência?: As Principais Dúvidas dos familiares sobre a jornada da perda de memória”.
Leonardo Silva (11) 9 4712-6442 [email protected]
