À medida que abril se aproxima do fim, no contexto do Abril Verde e às vésperas da entrada em vigor da nova NR-01, o avanço dos afastamentos por transtornos mentais tem levado empresas a rever a forma como encaram a segurança no trabalho no Brasil. A saúde mental deixa de ser tratada apenas como pauta de bem-estar e passa a ocupar espaço central na gestão de riscos e nos custos corporativos.
Em 2025, o país registrou 546.254 licenças por transtornos mentais, o maior volume da série histórica e o segundo recorde consecutivo, com crescimento de 15% em relação ao ano anterior, segundo dados do INSS.
A ansiedade liderou os diagnósticos, com 166.489 casos, seguida pela depressão, com 126.608 registros. Juntas, as duas condições já configuram o segundo maior motivo de afastamento no país, atrás apenas das doenças da coluna.
Para o médico ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, Dr. Marco Aurélio Bussacarini, autor do livro “Fatores Psicossociais no Trabalho: para líderes de empresas, gestores de RH, profissionais de SST e contadores”, os números refletem uma mudança estrutural no ambiente corporativo. “O adoecimento mental deixou de ser uma questão individual e passou a refletir a forma como o trabalho é organizado. Hoje, os riscos psicossociais precisam ser tratados com o mesmo rigor que os riscos físicos”, afirma.
Segundo ele, o tema deixa de ser periférico e passa a integrar a gestão estratégica das empresas. “Quando o adoecimento começa a impactar afastamentos, produtividade e engajamento, estamos falando de um risco operacional. Ignorar isso significa comprometer o desempenho do negócio”, diz.
Fatores invisíveis entram no radar corporativo
A mudança de perspectiva acompanha um entendimento mais amplo sobre o que configura risco no ambiente de trabalho. Elementos como demanda de trabalho, autonomia na execução das atividades, participação nas decisões, qualidade da liderança, apoio dos colegas, relações interpessoais, clareza na definição de funções e comunicação efetiva passam a ser tratados como variáveis críticas para o desempenho das empresas.
Embora menos tangíveis, esses fatores têm impacto direto nos resultados. Quando mal geridos, aumentam o absenteísmo, elevam o turnover e reduzem a produtividade, custos que nem sempre aparecem de forma imediata nos balanços, mas que afetam a operação de forma contínua.
“Os maiores impactos da saúde mental no trabalho nem sempre aparecem de forma imediata nos indicadores. A gente vê isso principalmente no aumento do absenteísmo e da rotatividade, que são prejuízos silenciosos, mas que afetam diretamente os custos e o resultado das empresas”, afirma Bussacarini. “O desafio é que muitos desses fatores são invisíveis. Clima, liderança, relações internas. Tudo isso não aparece na planilha, mas contribui para o desempenho da empresa”.
Pressão sobre custos e produtividade
O avanço do adoecimento emocional já aparece como variável relevante na gestão corporativa. De acordo com o relatório Health Trends 2026, riscos de saúde mental e psicossociais estão entre os principais fatores que pressionam os custos com saúde nas empresas, ao lado de doenças crônicas e fatores ocupacionais.
O estudo também aponta lacunas na oferta de benefícios e estratégias voltadas à saúde mental, indicando que muitas organizações ainda não acompanham a complexidade das demandas atuais da força de trabalho.
No Brasil, o impacto já é percebido no ambiente corporativo. Segundo levantamento da Engaja S/A, cerca de 18% dos trabalhadores enfrentam sintomas negativos de saúde mental diariamente, com efeitos diretos sobre engajamento e produtividade.
Nova regra amplia responsabilidade das empresas
A resposta institucional a esse cenário vem com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01), que passa a exigir a inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A partir de 26 de maio de 2026, as empresas deverão identificar, avaliar e mitigar os fatores psicossociais presentes no ambiente de trabalho, conforme as diretrizes do Ministério do Trabalho, sob pena de autuações e multas.
Na prática, a mudança amplia o conceito de segurança do trabalho, que passa a considerar o ambiente organizacional como fator determinante para a saúde. Segundo Bussacarini, a antecipação será decisiva. “As empresas que se prepararem antes da vigência terão mais segurança jurídica e ganhos operacionais relevantes. A prevenção, nesse contexto, passa a ser uma estratégia de eficiência”, afirma.
Segurança do trabalho entra em nova fase
Para especialistas, o Abril Verde deste ano marca a consolidação de uma nova etapa na gestão corporativa, em que saúde mental, produtividade e estratégia passam a caminhar juntas. “Ainda existe uma percepção de que investir em saúde mental é custo, mas, na prática, é uma estratégia de eficiência. Empresas que cuidam do ambiente organizacional produzem mais, reduzem perdas e preservam resultado”, afirma Bussacarini.
“A empresa que não incorpora o fator emocional na sua estratégia de segurança continuará tratando sintomas, e não causas”, finaliza.
Ana Cunha (41) 99102.1413 [email protected]
